Beleza

Será que as canetas emagrecedoras podem redesenhar a modelagem do jeans?

Os medicamentos à base de GLP-1, popularmente conhecidos como canetas emagrecedoras, começam a provocar impactos que vão muito além da saúde. Embora ainda estejam longe de alcançar a maior parte da população brasileira, seus efeitos já despertam a atenção de diferentes setores da economia

Durante um evento promovido pela Pague Menos e pelo Itaú BBA, Cathyelle Schroeder, CMO da Riachuelo, revelou que a varejista já identificou uma redução média de 5% em sua grade de modelagem. Segundo a executiva, peças básicas, como camisetas, também tiveram redução média de 4% nos tamanhos.

A informação chamou a atenção do mercado e levantou uma questão relevante: estaríamos diante de uma nova transformação no perfil físico dos consumidores?

Nos Estados Unidos, onde medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro já apresentam maior penetração, varejistas relatam aumento na procura por numerações menores, crescimento dos serviços de ajustes e maior movimentação em plataformas de revenda de roupas. Afinal, quando o corpo muda rapidamente, o guarda-roupa precisa acompanhar essa transformação.

Mas, para Robertto Dias, mestre em modelagem jeanswear há mais de duas décadas, a redução das tabelas de medidas não é necessariamente uma novidade.

Segundo ele, as grades de modelagem sempre acompanharam as mudanças geracionais e os hábitos da população.

“Quando comecei a trabalhar com modelagem, há mais de 20 anos, as medidas que correspondiam a um tamanho 42 são muito próximas do que hoje encontramos em um tamanho 38. As tabelas evoluem constantemente porque os corpos mudam ao longo do tempo”, explica.

Robertto lembra que, entre os anos 2000 e 2010, ocorreu um movimento oposto ao atual. Com o aumento dos índices de sobrepeso e obesidade, muitas empresas precisaram ampliar suas grades e desenvolver linhas plus size para atender uma nova realidade de mercado.

Além das mudanças físicas da população, ele destaca outro fator importante: as próprias marcas ajustam suas tabelas de acordo com o perfil de seus consumidores.

“Cada empresa desenvolve uma modelagem voltada para seu público. Muitas vezes, um tamanho 38 de uma marca veste como um 36 de outra. Não existe uma padronização absoluta. Os magazines precisam acompanhar constantemente o comportamento dos seus clientes para manter a assertividade das coleções”, afirma.

O impacto para o jeanswear

Mesmo que a redução das medidas não seja um fenômeno inédito, a popularização das canetas emagrecedoras pode acelerar uma tendência importante para o setor.

O jeanswear é uma das categorias mais sensíveis às mudanças corporais. Diferentemente de uma camiseta ou de uma peça de malha, pequenas alterações de medidas podem exigir a troca completa de numeração.

Por isso, cresce a importância de produtos capazes de acompanhar as transformações do consumidor. Tecidos com alta elasticidade, tecnologias de recuperação de forma, cós ajustáveis, modelagens mais flexíveis e serviços de ajustes pós-compra podem ganhar relevância nos próximos anos.

Mais do que uma questão de emagrecimento, o movimento está ligado a uma mudança de mentalidade. O consumidor atual busca saúde, bem-estar, longevidade e qualidade de vida, e espera que os produtos acompanhem essa jornada.

A grande oportunidade para o jeanswear não está apenas em criar tamanhos menores, mas em desenvolver produtos mais inteligentes, adaptáveis e preparados para acompanhar as constantes transformações do corpo humano — algo que, como lembra Robertto Dias, sempre fez parte da evolução da moda.

Fonte: Iolanda Wutzl | Foto: IA

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