Dentro de um hospital de emergência, há trabalhos que aparecem pouco, mas sustentam silenciosamente a vida. Na Farmácia do Hospital Municipal Miguel Couto, esse cuidado acontece todos os dias, em ritmo intenso, preciso e profundamente humano. Em uma unidade que funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, referência no atendimento a vítimas de acidentes automotivos, afogamentos e outros casos de urgência, a farmácia é parte essencial da engrenagem que permite ao hospital não negar atendimento a ninguém.

Sob a direção geral do Dr. Cristiano Curcio, o Miguel Couto mantém uma rotina de grande complexidade. Na emergência, destinada principalmente a quem chega de ambulância, o atendimento acontece de forma imediata. Já no primeiro atendimento regular, a triagem é realizada no CER, que funciona ao lado, integrado à dinâmica do hospital. Tudo isso exige uma estrutura de apoio capaz de responder com rapidez e segurança às demandas que chegam a todo momento.
A farmácia, com cerca de 25 funcionários distribuídos em turnos, recebe diariamente pedidos de mais de 400 leitos. São solicitações constantes, vindas de diferentes setores, exigindo agilidade, organização, responsabilidade técnica e atenção absoluta aos detalhes.
Todos os dias, os medicamentos são separados, fracionados e embalados individualmente pelos próprios funcionários. Com cuidado quase artesanal, comprimido por comprimido, a equipe prepara em média 3 mil unidades por dia. É um trabalho silencioso, repetitivo apenas na aparência, porque cada dose representa um paciente, uma prescrição, uma urgência e uma esperança de recuperação.
A variedade também impressiona. São mais de 200 tipos de medicamentos, entre antibióticos, analgésicos, anestésicos, psicoativos, anti-inflamatórios, saneantes e outros itens essenciais ao funcionamento hospitalar. Tudo é acondicionado de forma adequada, em geladeiras específicas, ambientes climatizados, espaços limpos, organizados e altamente seguros. A impressão que se tem é de zelo permanente: nada está ali por acaso, tudo obedece a uma lógica rigorosa de controle, conservação e proteção do paciente.
Além do abastecimento interno do hospital, a farmácia também atende ao público e oferece assistência farmacêutica. Esse contato direto revela uma das faces mais sensíveis do serviço. Muitos estrangeiros, acostumados a sistemas de saúde em que quase tudo tem custo imediato, ficam surpresos ao descobrir que são atendidos gratuitamente. Alguns chegam a querer pagar. Os brasileiros, por sua vez, encontram ali uma estrutura pública que, mesmo sob pressão diária, segue funcionando com compromisso e acolhimento.
Entre os profissionais que fazem essa rotina acontecer estão Adriana Laureano da Silva Uchoa, farmacêutica plantonista; Maelin Reto, chefe da farmácia; e Camila, farmacêutica diarista responsável por todo o estoque, para citar apenas alguns. Cada uma, em sua função, representa a soma de técnica, disciplina e sensibilidade que marca o setor. Há conhecimento científico, mas há também paciência, escuta, responsabilidade e uma dedicação que não cabe apenas nos protocolos.
A farmácia do Miguel Couto mostra que excelência no serviço público não é uma ideia abstrata. Ela aparece na bancada limpa, no medicamento corretamente armazenado, no estoque conferido, na dose separada com atenção, no atendimento respeitoso e na equipe que entende que, por trás de cada pedido, existe uma pessoa esperando cuidado.
Em tempos em que tantas vezes se fala apenas dos problemas da saúde pública, conhecer o funcionamento da farmácia do Miguel Couto é reconhecer uma história de trabalho sério e de compromisso cotidiano. Ali, a eficiência não exclui a humanidade. Ao contrário: é justamente o cuidado humano que dá sentido à organização, à técnica e à entrega diária desses profissionais.
A cada plantão, a farmácia reafirma uma verdade simples e poderosa: quando o serviço público funciona com competência, limpeza, segurança e carinho, ele não apenas entrega medicamentos. Ele entrega dignidade.






